Durante dois dias, a ABERT participou, em Santo Domingo, na República Dominicana, das comemorações dos 80 anos da Associação Internacional de Radiodifusão (AIR). O encontro reuniu representantes de emissoras de rádio e televisão, produtores de conteúdo e especialistas para discutir os desafios e as oportunidades da indústria audiovisual nas Américas.
Conselheiros da AIR, o presidente-executivo da ABERT, Cristiano Lobato Flôres, o vice-presidente institucional, Flávio Lara Resende, e o diretor de Regulação, Jurídico e Tecnologia, Rodolfo Salema, acompanharam a reunião do Conselho Diretor, na segunda-feira (12), que apresentou um panorama da violência contra a imprensa nas Américas e recebeu novos associados. O Brasil permanece entre os países com número expressivo de agressões contra profissionais da comunicação.
Na terça-feira (13), o Summit da Indústria Audiovisual das Américas promoveu painéis sobre TV 3.0, proeminência da televisão aberta, métricas de audiência, pirataria e inteligência artificial.
Para Lobato Flôres, o evento marca uma nova etapa da AIR. “Esse evento é muito especial porque comemoramos os 80 anos da nossa Associação Internacional de Radiodifusão, da qual a ABERT é fundadora, e a AIR, assim como a própria ABERT, vem passando por um processo de transformação, criando novas bandeiras, novas visões. A AIR sempre teve uma atuação muito clara e objetiva na defesa do princípio da liberdade de expressão e de imprensa. E hoje a AIR também começa a se projetar e a trabalhar em outros temas que dizem a respeito à responsabilidade das nossas emissoras nesse novo ambiente tecnológico, além dos temas relativos à sustentabilidade, de preservação do nosso conteúdo, bem como outras ações junto ao mercado publicitário que pretendemos desenvolver com os demais países para que tenhamos um ambiente sustentável e democrático”, afirmou.
O presidente da AIR e vice-presidente institucional da ABERT, Paulo Tonet Camargo, destacou os três pilares que dão base à nova fase da AIR: liberdade, responsabilidade e sustentabilidade.
“Reunir as três Américas para discutir os grandes temas da indústria audiovisual é realmente importante porque a adoção de modelos tecnológicos de forma de métricas de audiência, de proeminência, de combate à pirataria é algo que nós temos que fazer de maneira continental. Nenhum país, nenhuma empresa, consegue fazer isso isoladamente. A AIR é o grande fórum para discutir, com toda indústria do audiovisual, esses temas fundamentais para o futuro e para o desenvolvimento dos nossos negócios. Nesta nova fase que incorpora toda a indústria nessas discussões, A AIR assenta o seu futuro em três bases: liberdade, pois a liberdade de expressão é a nossa base de existência, responsabilidade, porque temos responsabilidade sobre os conteúdos de informação e entretenimento que nós distribuímos, e sustentabilidade”, afirmou Tonet.
Também participaram das reuniões, como ouvintes, os presidente da AESP, Luiz Arthur Abi Chedid, e da MIDIACOM-RJ, André Dias.
TV 3.0: avanços, investimentos e novas oportunidades
O primeiro painel abordou os avanços da TV 3.0 no Brasil e no mundo, destacando a integração entre radiodifusão e internet, a melhoria da qualidade de imagem e som, a interatividade e as possibilidades de novos serviços e receitas para as emissoras.
O presidente da SET, Paulo Henrique Castro, ressaltou a importância da redução dos custos tecnológicos e da ampliação do ecossistema de equipamentos. Bruno Tariant, da Enensys, apresentou experiências internacionais e oportunidades comerciais, como publicidade segmentada, transmissão de dados e sistemas avançados de alertas de emergência.
Representando o Ministério das Comunicações, Tawfic Awwad Júnior destacou a TV 3.0 como prioridade do governo federal. Entre as medidas apresentadas estão a disponibilização de 12 canais adicionais na faixa de 300 MHz, a elaboração de normas regulatórias e uma operação de crédito externo de US$ 500 milhões, que ainda depende de etapas de aprovação, para apoiar a implantação da tecnologia. Também mencionou estudos para a distribuição de conversores a famílias de baixa renda a partir de 2027.
Proeminência da TV aberta e acesso às novas telas
O segundo painel discutiu a necessidade de garantir que os conteúdos da radiodifusão estejam disponíveis e sejam facilmente encontrados nas diferentes plataformas digitais.
Ricardo Anaya, da Qualcomm, apresentou o potencial do 5G Broadcast para transmitir conteúdos de rádio e televisão diretamente a dispositivos móveis, sem necessidade de conexão individual à internet.
Ramon Lobato, da Universidade de Swinburne, destacou a experiência da Austrália, que aprovou legislação para garantir a presença dos aplicativos das emissoras de televisão aberta nas telas iniciais das smart TVs. Já Wolfgang Schulz, do Instituto Leibniz/Hans-Bredow, apresentou o modelo alemão, que estabelece obrigações de transparência e visibilidade para conteúdos de interesse público.
O debate também abordou os desafios da inteligência artificial, que passa a atuar como intermediária no acesso à informação. Os participantes defenderam medidas para assegurar a visibilidade do jornalismo profissional, o pluralismo e a liberdade de escolha dos usuários.
Métricas de audiência e valorização comercial da televisão
A mensuração de audiência no ambiente multiplataforma foi o tema do terceiro painel. Os participantes destacaram a dificuldade de comparar os resultados da televisão aberta com os das plataformas digitais, diante da ausência de critérios comuns, transparentes e independentes.
Juan Martín, gerente comercial grupo peruano ATV, ressaltou que visualizações, reproduções e audiência não são indicadores equivalentes e defendeu metodologias capazes de medir o alcance total dos conteúdos sem duplicidade de espectadores.
Antonio Wanderley, da Fifty5Blue, destacou os impactos da inteligência artificial sobre o mercado publicitário e a necessidade de preservar sistemas confiáveis de mensuração. Já Claudia Molinari, chefe de Dados e Análises de Audiência na ARTEAR, reforçou o valor da televisão na construção de marcas, na credibilidade e na oferta de ambientes seguros aos anunciantes.
Os debatedores defenderam maior protagonismo da radiodifusão na definição de métricas, na valorização de seus resultados comerciais e no reconhecimento de sua contribuição para a construção de marcas e a geração de demanda.
Combate à pirataria e proteção dos conteúdos na era da inteligência artificial
O último painel abordou dois desafios para a sustentabilidade da indústria audiovisual: a pirataria e a utilização de conteúdos jornalísticos por plataformas de inteligência artificial.
Jorge Alberto Bacaloni, da Aliança Contra a Pirataria Audiovisual, apresentou dados sobre a dimensão econômica da distribuição ilegal de conteúdos na América Latina. Segundo o levantamento apresentado, cerca de 30,7 milhões de domicílios em sete países analisados consomem conteúdos audiovisuais pirateados.
A superintendente de Fiscalização da Anatel, Gesiléa Fonseca Teles, destacou a experiência brasileira no enfrentamento da pirataria, por meio da fiscalização de equipamentos não homologados, bloqueio de serviços ilegais e cooperação entre órgãos públicos e empresas. Ressaltou também os riscos dos dispositivos TV Box irregulares à segurança cibernética e à proteção dos dados pessoais, defendendo maior participação das emissoras na conscientização da população.
Na discussão sobre inteligência artificial, Nicolás de Anchorena e Tomás Vio, do Grupo Clarín, alertaram para os impactos econômicos da utilização de conteúdos jornalísticos pelas plataformas tecnológicas, especialmente quando respostas geradas por IA substituem o acesso aos sites dos veículos de comunicação.
Os representantes defenderam regras de transparência, autorização, remuneração justa e identificação das fontes originais, além de maior articulação entre associações de comunicação da América Latina para fortalecer a proteção dos conteúdos e a capacidade de negociação do setor.
Desafios comuns para a radiodifusão
Os debates reforçaram a importância da cooperação internacional para enfrentar os desafios tecnológicos, econômicos e regulatórios da radiodifusão. Entre as prioridades destacadas estão a implantação da TV 3.0, a garantia de acesso e visibilidade dos conteúdos nas plataformas digitais, a transparência das métricas de audiência, o combate à pirataria e a proteção da produção jornalística diante do avanço da inteligência artificial.
As discussões também evidenciaram a necessidade de preservar a sustentabilidade econômica das emissoras e fortalecer o papel do rádio e da televisão aberta na oferta de informação confiável, entretenimento e serviços de interesse público.
fonte: ABERT