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Alternativas sustentáveis para um novo modelo de produção de notícias


Se existe um dilema que desafia a criatividade dos jornalistas, este é sem sombra de dúvida o da sustentabilidade futura da atividade. Já está bastante claro que o modelo e produção de noticias que vigorou até agora não vai sobreviver durante muito tempo, apesar do discurso oficial de que a imprensa é essencial para a democracia.

Por incrível que pareça, a busca e experimentação de novos modelos de produção de informações na área da comunicação jornalística não é tratada nas faculdades, nem nos sindicatos e tampouco nas associações profissionais. Pouco de sabe sobre as preocupações dos empresários das indústrias de comunicação porque eles preferem exibir otimismo e uma grande aversão a compartilhar o problema com leitores e jornalistas.

Os jornalistas explicam que não podem pensar sobre o problema porque estão preocupados em manter ou procurar empregos, enquanto os sindicatos jogam toda a culpa nas empresas. As universidades priorizam a especulação teórica, deixando de lado a pesquisa de campo, absolutamente essencial numa questão onde é quase total a falta de dados concretos sobre a transição do modelo industrial para o digital na comunicação jornalística.

As grandes empresas experimentam novas alternativas como o acesso pago às notícias na internet, o uso do iPad como plataforma de publicação para substituir o papel, foco no noticiário hiperlocal para reconquistar leitores e novos sistemas de captação de publicidade. Quase todas estas experiências partem da estratégia tradicional de que a imprensa deve atrair leitores para usá-los como isca para a publicidade que viabilizará o negócio da notícia.

Nos Estados Unidos e na Europa, a crise na indústria da comunicação materializada numa queda acumulada de quase 40% na receita publicitária levou a limites críticos as incertezas no setor empresarial, obrigando todos a pensar na sua salvação financeira. Na Inglaterra, a tiragem dos jornais caiu em média 14% nos últimos dois anos. No Brasil, as características familiares dos grandes grupos jornalísticos e o período de bonança econômica amenizaram as agruras da imprensa, a ponto de os executivos acharem que poderemos escapar da crise.

Esse otimismo impede a verificação da situação real. Apesar as especificidades brasileiras, a crise na imprensa não é conjuntural, mas estrutural. Não são dificuldades transitórias, com o endividamento em dólares, mas o esgotamento de um modelo global de produção de notícias.

A grande preocupação, que infelizmente ainda está na cabeça de poucos, é de que não podemos ficar em informações. Não é mais apenas o fato de que, segundo o discurso convencional, as pessoas precisam estar bem informadas para tomar decisões políticas adequadas para a manutenção do regime democrático. Isto serviu para justificar a idéia da imprensa como um quarto poder político.

Hoje esse discurso perdeu seu caráter hegemônico diante do surgimento dos blogs e das redes sociais onde pessoas comuns romperam o monopólio da imprensa na distribuição de notícias. Além disso, as novas tecnologias transformaram a informação na matéria prima mais valorizada na economia digital. Portanto, a informação não é mais só um ingrediente na receita democrática, mas um componente da própria estrutura econômica na qual passamos a viver.

Por isso a preocupação com os novos modelos de produção de notícias e informações é hoje ainda mais essencial do que no passado, quando ele era apenas uma frase de efeito no discurso de políticos e barões da imprensa. O que nos assusta é que a tomada de consciência da gravidade do problema é muito lenta.

Ela deve começar inevitavelmente pelo conhecimento da realidade da transição de modelos, por meio de pesquisas objetivas e sem a preocupação com o brilho acadêmico ou marketing corporativo. As mudanças no contexto da transição acontecem num ritmo vertiginoso que atropela nossa capacidade de entendê-las. Por isso é essencial estudar a realidade para procurar achar os elementos que podem nos levar a ver o processo como ele realmente é — e não como gostaríamos que fosse.

O levantamento da realidade deve nos conduzir a pensar modelos de produção de noticias que sejam sustentáveis, porque esta é uma condição obrigatória para qualquer projeto. E aqui já podemos vislumbrar três hipóteses que podem servir de referência para serem pesquisadas e testadas na prática:

a) Sustentabilidade baseada na captação de publicidade para financiar os custos operacionais. É uma adaptação do modelo convencional ao sistema digital. Por enquanto os resultados são desanimadores.

b) Modelo misto, com publicidade, com participação financeira dos leitores e ajuda filantrópica. Há várias experiências em curso nos Estados Unidos e Europa. O problema é que os resultados de lá não podem ser copiados aqui porque a realidade social é diferente. Logo teremos que testar esta alternativa aqui.

c) Participação governamental, vista até agora com suspeita pela mídia convencional por conta de justificáveis precedentes históricos em matéria de censura, corrupção e nepotismo. Mas o fato é que o debate sobre a participação do estado no financiamento parcial da produção e distribuição de notícias passa a ter uma relevância equivalente à presença estatal na saúde, educação e segurança, por exemplo. Com a perda de rentabilidade, o negócio da notícia se torna cada vez menos atraente para os investidores e a informação passa ser cada vez mais uma necessidade pública. Daí o fato de não poder ser descartada, no futuro, a opção do financiamento público.

Está na hora de abrirmos um grande debate público sobre o futuro da produção e distribuição de notícias e informações. Este debate só pode começar com a produção de dados sobre a própria imprensa, com a maior transparência possível, para que possamos buscar alternativas baseadas no máximo de conhecimento possível da realidade informativa brasileira. Já estamos cansados do wishful thinking das empresas e na chutometria dos marqueteiros de plantão.

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